A Bíblia, nosso manual catequético

A Bíblia, nosso manual catequético


Índice

1) A graça da Palavra
2) O Deus da Revelação
3) O homem no plano de Deus
4) O plano de Deus para o homem
5) O Jesus da Revelação (I)
6) O Jesus da Revelação (II)


1) A graça da Palavra


                                                                                              
            A bíblia, nosso manual catequético, se abre com esta expressão: “Pela Palavra, o nosso Deus deu origem a todas as coisas” (Gn 1,1) (Trata-se de uma leitura sugerida por exegetas que reconhecem no termo ‘Princípio’ o termo com que é chamada a Sabedoria em Pv 8,22: “Deus desposou-me, Princípio da criação”). Acompanha-a o Espírito que “paira sobre as águas”. A linguagem é antropomórfica. Vemos, contudo, que João, no prólogo do seu evangelho, se serve da abertura da Escritura para falar de Jesus, que descreve na condição de Sabedoria “que sempre está com Deus”, porque é Palavra criadora (Jo 1,1-3). Toda e cada coisa chega a existir em virtude da sua ação: “nada do que existe, existe sem Ela” (ibid.).
            Pela relação que João estabelece entre a ação de Deus, apresentada através da linguagem figurativa que descreve a sua palavra saindo da sua boca, e a ação pessoal de Jesus que “sendo de condição divina,... humilhou-se, assumindo a condição de criatura obediente” (Fl 2,6), nota-se uma longa caminhada, ao longo da qual é possível constatar uma riqueza de “verdade e de graça” sempre mais abundante, diretamente proporcional à intensidade segundo a qual Deus se manifesta. Graça e Verdade alcançam o máximo da sua intensidade quando a Palavra se faz carne. Ela vem “cheia de graça e de verdade” (Jo 1,14), “pois de sua plenitude todos nós recebemos graça por graça” (v.16).
                                    Embora seja empolgante a graça que a Revelação nos concede através da beleza das criaturas, que de Deus nos cantam, também, o poder, a sabedoria e a bondade, a partir da criação da luz, ela é insignificante enquanto não passa de uma efusão sua inicial. De fato ela atingirá o infinito no seu limiar com a Encarnação e entronização no céu de Jesus. Para fazer uma comparação, podemos dizer que ela proporciona uma compreensão de Deus comparável à compreensão que os antigos tinham da luz, tendo como fonte de inspiração a luz do sol, à compreensão que nós temos da mesma pelas informações que a astronomia nos fornece. Esta última nos oferece uma compreensão capaz de provocar em nós uma profunda intuição da natureza divina, quando tomamos conhecimento da luz que se apresenta com o nascimento de uma estrela. Fruto de reações ainda desconhecidas, infinitamente superior à luz que emana do sol, que já é fruto de reações nucleares, nos leva até o limiar da compreensão da divindade, em virtude da sua perfeição e beleza infinitas.
            Diante do canto da criação, Paulo constata que o homem não é capaz de chegar a conhecer a Deus e que, em lugar de prestar glória ao Criador, presta o seu culto de adoração às criaturas: às aves, aos répteis, aos quadrúpedes e aos homens (Rm 1,18-23). Contudo, se isto pode ser permitido ao homem da antiguidade, é um fato estranho ver como ainda há cientistas incapazes de reconhecer na luminosidade de reações sempre mais surpreendentes a assinatura do Criador, quando a astronomia, depois de séculos de estudo chegou a estabelecer que somente é possível dizer se uma estrela é mais distante de nós do que outras pela cor da sua luz que chega até nós depois de milhares ou, até, de milhões de anos-luz.


Astrônomos dizem ter observado o que poderia ser a supernova mais poderosa da história. A explosão estelar foi flagrada pela primeira vez em junho do ano 2015 mas permanece irradiando energia.


Em seu auge, o fenômeno foi 200 vezes mais poderoso do que uma supernova comum, ou 570 bilhões de vezes mais brilhante do que a luz do sol.


Cientistas acreditam que a explosão e a atividade atual da estrela foram impulsionadas por um corpo celeste ultracompacto e supermassivo conhecido como magnetar ─ uma estrela de nêutrons com forte campo magnético.
O magnetar, resultado da supernova, costuma girar a uma alta velocidade, em torno de mil vezes por segundo.


Mas, de acordo com os astrônomos, o corpo celeste vem desacelerando e, na medida em que isso acontece, despeja essa energia rotacional em um envoltório de gás que libera poeira estelar.


Detalhes do fenômeno foram registrados na última edição da revista científica Science.


A supernova superiluminada, como é denominada, foi flagrada a 3,8 bilhões de anos-luz da Terra pela All Sky Automated Survey for SuperNovae (ASAS-SN), projeto polonês que faz monitoramento fotométrico de cerca de 20 milhões de estrelas. (
(Publicado Sexta-Feira, 15 de Janeiro de 2016, às 17:34 | Jonathan Amos Repórter de Ciência da BBC News

Cenário MT.com.br)

            É através dos profetas que falam em nome de Deus que a graça consegue atingir os homens de maneira eficaz. Infelizmente isto não acontece quando ainda seria possível evitar uma longa e dolorosa experiência de purificação, bastando a conversão e a volta à fidelidade à aliança com Deus (Dn 9,1-7). É tão forte, contudo, a eficiência da graça pela palavra dos profetas que ela consegue, através da reflexão sapiencial dos mestres de Israel, a apresentar os quadros da criação e, por eles, a motivar os fiéis, reunidos em assembleia, a prestar culto a Deus enquanto o celebram segundo os seus atributos de onipotente, bom, cheio de esplendor e sábio. Fato importante porque é pelo culto ao Criador que começa o processo de crescimento da criatura, pela obediência e o serviço.
            Como acontece no caso da Palavra que realiza uma manifestação de graça através da obra da criação para chegar ao seu máximo de realização quando, na condição de Vida e Verdade eclode como uma luz para chegar ao máximo da sua glorificação no Céu, agora volta a se repetir o mesmo processo, no que diz respeito à Palavra enquanto revela o Mistério. Parte de um primeiro grau de intensidade, qual é o momento de explicar qual é a condição da criatura diante do Criador e o caminho da sua realização, para passar a mostrar à qual profundidade chega a Sabedoria de Deus quando anuncia a realização do homem através de um Plano de Redenção. Aquela Sabedoria que já se revelava na ordem cósmica e no reino vegetal e animal, distinguindo o homem por uma peculiar vocação, atinge o auge da sua manifestação quando apresenta uma condição de redenção dos homens através de um deles, um nascido de mulher: verdade que somente se tornaria compreensível quando o homem chegasse a conhecer a condição divina do irmão capaz de remi-lo.
            A essa altura, a profecia e a reflexão sapiencial se juntam. Resultado: o conteúdo de uma Revelação profética de indescritível valor, cuja grandeza é selada e, ao mesmo tempo, superada pela atuação de Jesus.
            A profecia acontece num contexto de falta de fé. Deus toma a iniciativa de anunciar um acontecimento surpreendente. O Filho que nascerá da “jovem mãe” levará o nome de Emanuel. A LXX, por causa disso, chama a mãe do Emanuel de “virgem”. Os termos desta profecia somente serão explicados pelos acontecimentos testemunhados pelos evangelistas, seja quanto ao nascimento como quanto à divindade de Jesus. A reflexão sapiencial utiliza Is 7,14 para ilustrar, no prefácio de toda a bíblia (Gen. 1-11), a maneira segundo a qual se realizará a salvação da humanidade que em Adão pecou (Rm 5,12). A graça da verdade vai, então, se apresentando intensa e clara, permitindo a plena compreensão de uma linha teológica que Deus quer revelar pela ação do seu Espírito. A história de Israel se torna paradigmática, enquanto, a partir de Gn 12, é apresentado como o povo de escolha, chamado para a missão de anunciar o Deus verdadeiro a todos os povos da terra.
            A eclosão da revelação profética acontece quando a Palavra se torna a própria graça pela qual o Criador quer tornar as criaturas participantes da sua vida. É o momento em que a Bondade, para isso, realiza a nossa adoção filial num contesto de redenção. Jesus Cristo, na condição de “Filho que o Pai consagrou e enviou ao mundo” (Jo 10,36), ele mesmo sendo “Vida e Verdade” (14,6), em espírito de submissão, se oferece como vítima de expiação, em favor dos seus irmãos. Nele, a profecia torna-se revelação, numa espetacular refração de luzes, qual somente pode ser oferecida pela infinita variação da virtualidade da divindade. É aquilo que Mateus quer exprimir quando apresenta Jesus no início do seu ministério messiânico: “Uma grande luz resplandeceu nas trevas....” (Mt 4,16). Está citando o Isaias do Livro do Emanuel. João é ainda mais explícito. Depois de ter definido Jesus com o termo “Palavra da Vida”, declara ser ele “Luz do mundo”, a “Palavra que se fez carne”. É a mesma coisa que dizer que Jesus é a “Vida” que assumiu a condição humana para iluminar, na condição de Verdadeiro, “os que jazem nas trevas e na sombra da morte” (Lc 1,79).
            Pode-se notar como as imagens da linguagem figurativa da profecia se tornam, para os evangelistas, a linguagem da sua reflexão sapiencial. Por causa disso, é importante ter presente que os escritos do NT dão continuidade à tradição da linguagem sapiencial do AT e que, por eles é possível descobrir o sentido dos termos que a Escritura utiliza. Em segundo lugar, é importante constatar que a linguagem figurativa do NT supera a do AT porque apresenta o Mistério profetizado na sua realização, enquanto explora os conteúdos expostos pelos autores antigos. As duas leituras da Liturgia do Natal que citam a Carta a Tito ilustram perfeitamente o princípio de análise que acaba de ser apresentado: “A Graça de Deus se manifestou para a salvação de todos os homens” (Tt 2,11); “A bondade e o amor de Deus, nosso Salvador se manifestaram... por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador” (v. 6).
            A possibilidade de inverter os termos, a ponto de considerar graça o próprio Jesus, permite constatar como as suas afirmações se referem a uma realidade que está nele e que opera de forma singular. Quando Jesus se dirige a interlocutores que resistem em acatar os seus ensinamentos, ele não duvida em afirmar ser a Palavra que sai da boca de Deus, mas que a ele não volta sem antes ter dado o alimento ao agricultor (Is 55,10), porque ele é o único que desce do Céu e porque “as suas palavras têm o Espírito sem medida” (Jo 3,34); as suas palavras “são espírito e vida” (6,63). A graça da Palavra, além de ser tudo aquilo que chega ao homem pela ação profética, pela reflexão sapiencial, e pelos ensinamentos do próprio Jesus; além de ser o próprio Jesus, a Luz que dá a vida ao mundo, em última análise, é a comunicação daquilo que é o próprio Deus: Espírito. É aquilo que Jesus promete na iminência da sua Páscoa (Jo 14,17): o Espírito do Verdadeiro que, com os seus dons, leva a toda Verdade. Este é o Espírito do qual fala “Aquele que esteve morto mas, agora, vive” (Ap 1,17): “Quem tem ouvido, ouça o que o Espírito diz às Igrejas” (Ap 2,7).
            Chegamos a uma identificação da graça da Palavra: é a Vida do Santo que é comunicada aos homens pela ação da Palavra da Vida, que mereceu o Espírito pela sua Morte de Cruz. Realiza-se o pedido de Jesus: “Pai santo, guarda-os em teu nome, o nome que me deste, para que sejam um como nós” (17,11b). “Santifica-os na Verdade” (v. 17): “Por eles, a mim mesmo me santifico para que sejam santificados na Verdade” (v.19).


2) O Deus da Revelação                                                             
          Quando tomamos conhecimento da história da antiguidade, notamos que, entre todos os povos, destaca-se o povo de Israel que, embora compartilhe a mesma condição de idolatria dos outros povos, ao longo do tempo, chega a ser um povo monoteísta. Quando os seus historiadores refletem sobre este fenômeno e descobrem o seu surpreendente processo, apercebem-se que ele foi fruto de uma ação pedagógica daquele El pelo qual Israel acabou, gradativamente, optando, até chegar a reconhecê-lo, por graça, como único Deus existente. Isto significa que Israel foi beneficiado, por ter sido amado com amor de predileção por parte do Criador antes mesmo que dele tomasse consciência. Esta primeira característica do verdadeiro Deus, já nos permite constatar que ele age no intuito de favorecer o homem. Não é um ser que se prevalece do seu poder. O seu aspecto benevolente torna-se ainda mais evidente a partir do momento no qual o vemos agir de tal maneira que  a Israel é dado concluir ainda mais intensamente que ele existe, pela ação dos profetas que ele envia: atitude de Deus caracterizada pelos profetas como se fosse um ciúme que ele sente por Israel; o que acaba revelando o seu profundo amor em relação ao povo que ele escolheu. Os sentimentos de Deus assumem características ainda mais específicas, que o ilustram ainda mais no que diz respeito à sua natureza, quando a reflexão sapiencial dos escribas, em Israel, comenta a ação de Deus, que reconhece ser uma ação que visa uma salvação universal. Isto se torna possível, mais uma vez, por causa da atitude benevolente e amorosa de Deus. Os seus profetas, enquanto anunciam a sua vontade, para motivar a sua aceitação, falam dele e proclamam, sem titubeação, que ele é o Criador de todas as coisas, o Senhor da História, o Santo de poder irresistível. É o anúncio profético, que se caracteriza pela inspiração, que dá segurança ao pensamento dos sábios, em Israel
            A narrativa catequética em que se constitui Gn 1, que, originariamente, visava promover a prática do repouso sabático, é uma proclamação da obra da criação. Colocada na abertura do Prefácio de toda a Bíblia (Gn 1-11), acaba se tornando uma peça literária capaz de sintetizar os atributos fundamentais de Deus. A sua natureza é a Bondade. Através da criação, agindo com sabedoria, manifesta o seu poder e a sua glória.
            Contudo, a primeira narrativa catequética da Bíblia, embora já nos fale da natureza de Deus, especificando que ele é a Bondade, e das suas características fundamentais, não chega a apresentar a Glória de Deus em todo o seu esplendor. Isto pode ser percebido claramente quando a narrativa da queda do homem por causa da sua rebeldia revela em Deus uma atitude de misericórdia. Ao homem perdido, sem rumo e despojado da sua dignidade, Deus anuncia uma redenção. Nós, que a conhecemos atuada, temos a condição de avaliar a qual cume de perfeição chega a Bondade, porque Deus demonstrou o seu extremado amor “entregando o seu próprio Filho” (Jo 3,16). É necessário notar nesta afirmação de Jesus toda a grandeza da obra de Deus porque o Filho tem em comum com Deus a condição de ser Vida e Verdade (Jo 14,6), segundo a qual ele pode afirmar que, se pela Encarnação ele é o “Filho que o Pai consagrou e enviou ao mundo” (Jo 10,36), em virtude da sua condição divina pode, também, dizer que veio por si mesmo “para que todos tenham vida” (Jo 10,10). O mistério da Vida Trinitária, do qual tomamos conhecimento em virtude da revelação que Jesus dele nos fez, explica a possibilidade da dupla abordagem, extremamente elucidativa, quanto à compreensão do Deus da revelação.
           O Deus que realizou a sua obra redentora revela ainda mais algo do esplendor da sua Glória quando nos apercebemos que explorando a condição que ela criou, ele pode chegar a atuar segundo a sua Bondade em toda plenitude. Isto acontece quando escutamos a Catequese Apostólica nos anunciando que Deus, “por livre determinação da sua vontade, nos predestinou a sermos seus filhos adotivos em Jesus Cristo, no qual temos a redenção e o perdão dos pecados”. A essa altura, é o cântico espiritual de Paulo, Ef 1,3-14, que, único, é capaz de celebrar toda a riqueza do amor misericordioso do “Deus de Israel que a seu povo visitou e fez surgir um poderoso Salvador, na casa de Israel seu servidor” (Lc 1,68-69).
            Impressiona-nos ver com que perspicácia os autores sagrados souberam falar de Deus, a ponto de podermos, dele, formular uma clara imagem, através dos textos da Escritura, indo além da já profunda definição do filósofo Fílon de Alexandria, que dizia ser Deus “o Desconhecido”. Deus pode ainda continuar a ser “o Desconhecido” pra o homem que se encontra, sem nem mesmo o saber, em uma condição de miséria moral, na qual acaba sempre mais envolvido com o passar dos anos de sua vida. Já não o é, a princípio, a partir do momento em que Deus dá início ao seu Plano de salvação, determinado em tornar o homem seu filho adotivo em Jesus Cristo (Ef 1,5). O sucesso da sua ação pode ser constatado nos santos que suscitou antes da Encarnação de seu Filho e continua a suscitar depois. Hb 11 sintetiza esta realidade ao elencar os santos que alcançaram o Reino pela perseverança no testemunho da fé.
                      Gn 1 quer descrever Deus segundo a perfeição das suas virtualidades quais se apresentam na obra da criação. As intuições que a luz, sua primeira criatura, suscita no judeu compenetrado diante da santidade do seu Deus, qual sugerida pelas palavras de Is 6, quando da sua visão da Glória, nos familiarizam com a perfeição do seu Ser que o nosso Credo professa ser Luz da Luz. Dele podemos formular a riqueza quando pensamos nos benefícios e no conforto que a luz do sol nos propicia, ela que é fruto de milhões de reações nucleares que se tornaram possíveis pelo nascimento de um universo, momento em que se apresentou uma luz ainda mais brilhante, fruto de uma reação cuja natureza nos é desconhecida. As sequências das origens das luzes no mundo criado nos levam a pensar, por analogia e sublimação naquilo que poderia ser a Luz de Deus, infinita na força da sua perfeição, da qual emanam benefícios de toda ordem. O esplendor e o poder do Ser perfeitíssimo, para o autor de Gn 1, volta a se repetir em cada dia da narrativa da criação, lembrados pelo refrão, depois de cada proclamação das obras criadas: “Eis uma tarde, eis uma manhã”: uma alusão a Ex 16, onde se diz que, pelo prodígio das codornizes e do maná, Deus “revelou o seu Poder e manifestou a sua Glória” (v.6.12).
            A luz, por si, torna mais sugestiva a prerrogativa da beleza da Glória de Deus. São as condições das águas vistas colocadas acima do céu ou contidas pelas margens da terra que recordam a sensação do poder imenso da Divindade. A variedade das espécies da vegetação e das estrelas do céu ajuda a compreender o esplendor da Gloria de Deus, enquanto a vida animal faz pensar na sua sabedoria. É no homem, contudo, que o autor encontra a inspiração para pensar na grandeza de Deus, porque ele tem em si as condições de ser o espelho das prerrogativas divinas, porque criado “à sua imagem e semelhança” (Gn 1,26).
           É importante ter sempre presente a imagem de Deus, apresentada em Gn 1, porque é sobre ela que devem ser sobrepostas as outras características que irão se apresentando gradativamente, enquanto, ao longo da Bíblia é narrado o progressivo relacionamento que se estabelece entre Deus e o homem. De fato, em Gn 2 vemos que Deus chama o homem a estabelecer uma relação pessoal com ele, condição para que cada homem desenvolva o seu crescimento. É importante, também, tomar conhecimento do estilo literário do autor, que é o da linguagem figurativa e de como, cada ensinamento deve ser considerado individualmente. Segundo este princípio é possível ver claramente qual é o ensinamento de cada reflexão catequética e distingui-lo dos elementos da linguagem figurativa utilizados pelo seu autor.
            Quando empreendemos a leitura de Gn 3, entramos na problemática da relação entre Deus e o homem que, pela rebeldia, rompe com o seu Criador. A narrativa catequética deste capítulo da Escritura nos permite dizer que esta pode ser definida uma ‘Antropologia revelada’. Não fosse pela ação decisiva com que Deus realiza o seu Plano, poderíamos até pensar que o homem é o protagonista principal da História da salvação que a Bíblia nos apresenta. O “Homem Cristo Jesus que se deu em redenção para todos” (1Tm 2,5) é o elemento que estabelece, quanto à importância dos protagonistas, a forma correta para definir a natureza da relação entre Deus e o homem. Deus é importante porque é aquele que salva, o homem é importante porque é a criatura que deve ser salva.
           Com surpreendente longanimidade, Deus, que pela obra da criação revelou ser, por natureza, a Bondade, fiel a si mesmo, revela ser um Deus misericordioso, resultando a culpa do homem a condição para que o seu Nome seja glorificado. A forma segundo a qual Deus irá resgatar o homem da escravidão do Mal revelará, no seu auge e, ao mesmo tempo, no seu âmago, a largura e a extensão do seu amor. Dessa forma, na Escritura, se apresenta um Deus pessoal que se relaciona com o homem com equanimidade, embora mostre claramente a sua condição de Senhor, Aquele que Jesus descreverá com maestria, numa das suas parábolas, como “um rei que resolveu acertar contas com os seus servos” (Mt 18,23).
            A Bíblia desenvolve a figura de Deus apresentada na criação e no momento da rebeldia do homem através do Livro do Êxodo. Vemos nele o mesmo Deus que visitou o homem, que estava nu, que, do alto céu, se inclina para ver a condição em que se encontra o seu povo. Movido pela compaixão, decide tirá-lo da escravidão. Para isso, envia Aquele que o tirará do Egito. A Páscoa será o Memorial perpétuo daquilo que Deus realizou “com mão estendida e grandes julgamentos” (Ex 6,6). Atravessado o mar, ao longo da peregrinação no deserto, Deus alimentará o seu povo com o maná e marcará a sua presença no meio dele com a sua Tenda. 
‘          A história de Israel, episodicamente descrita pelos manuais catequéticos dos livros do Êxodo e dos Números e relembrada pelo Deuteronômio, para que seja continuamente meditada, é o enredo histórico utilizado pela Catequese Apostólica, como pode ser constatado nos escritos dos Evangelistas. Deus realiza o seu Plano de salvação enviando o seu Filho, o Profeta que deverá ser escutado. Jesus é o Novo Moisés que institui a Nova Páscoa. O seu povo se alimentará da carne do Cordeiro imolado, o verdadeiro pão descido do céu, a Palavra da Vida que colocou a sua tenda entre nós (Jo 1,14), enquanto caminha rumo à Pátria definitiva.
Os escritos dos evangelistas se concentram na Pessoa divina de Jesus. São as Cartas dos Apóstolos que, sem deixar de valorizar à altura a condição divina e a importância da atuação do Senhor, equilibram as atuações das Pessoas da Ssma. Trindade. A presença do Pai, que é particularmente acentuada nos evangelhos no momento do Batismo de Jesus no Rio Jordão, na Transfiguração e na Paixão, é lembrada constantemente por Paulo, particularmente nas saudações iniciais das suas cartas, enquanto destaca a condição subordinada de Jesus, na condição de Filho. É evidente que esta condição se dá por causa de uma aniquilação voluntariamente assumida, em vista da realização de uma redenção. Deus, assim apresentado, acaba aparecendo com todas as qualificações que a revelação entende nos transmitir. A condição de Vida Trinitária da qual Jesus, o “Unigênito Deus” (Jo 1,18), nos deu a explicação, é a coroação de tudo o que, pedagogicamente, o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim, o Todo-poderoso (Ap 1,8) esteve manifestando a partir do momento em que “Aquele que é, que era e que vem” (v.4) pôs em ato o seu desígnio de “recapitular tudo em Cristo” (Ef 1,10), com quem, os que tiverem coroado a sua fé com a virtude da esperança, reinarão, após ter vivido a purificação na condição de povo por ele conquistado, após ter sido a ele configurados pelo Espírito, pelo caráter.


3) O homem no plano de Deus


Não obstante o fato de que o homem seja o habitante de um grão de poeira, como é o planeta Terra no universo, e que, portanto, fisicamente, seja de uma grandeza insignificante, vemos que, pelo que nos atesta a Revelação, ele é importante aos olhos do Criador. O autor de Gn 1, quando dele chega o momento da criação, adota um tom enfático e mostra Deus falando de forma solene para que captemos toda a importância que cada homem tem diante do Criador: “Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança e que eles dominem...” (Gn 1,26). O Senhor da criação eleva o homem a senhor de tudo aquilo que criou. Nada mais majestoso do que céu com as suas aves, do que mar com os seus peixes e do que a terra com as suas criaturas.
O autor de Gen 1 lembra, também, que Deus, na sua bondade, se preocupa em ditar ao homem o caminho da sua realização, convidando-o a sempre reconhecer a sua condição de dependência do seu Criador através da observância dos seus mandamentos. Mas, enquanto Deus se preocupa com a felicidade do homem pela instituição do matrimônio, estabelecendo uma relação de companheirismo entre o homem e a mulher, para serem, um para o outro, consolo, ao longo das suas vidas sobre a terra, o homem, logo, na sua insensatez, envereda o caminho da idolatria. Ele se exalta a ponto de pensar que pode ignorar a sua condição de dependência de Deus e ditar para si as regras da sua realização. Esta é a causa da situação desastrosa em que se encontra a humanidade: uma situação de desgraça da qual o homem não consegue sair, até porque, não fosse por revelação divina, ele nunca saberia, em qual condição, de fato, se encontra, uma vez que “foi concebido em pecado”, isto é, pertence a uma estirpe de mente frágil, sujeita ao erro: “Tímidos são os pensamentos dos mortais, e incertas as nossas concepções” (Sb 9,14). A ira de Deus está sobre a sua cabeça como uma espada pronta a transfixá-lo porque retém a verdade prisioneira da injustiça (Rm 1,18). Tendo-se afastado do seu Criador, tendo-se tornado incapaz até de reconhecer os sinais da sua presença na criação, não sabe nem sequer reconhecer que tudo tem a sua origem nele e por ele. Tão pouco sabe o porquê da desordem moral que está nele, tendo dela uma percepção mínima da sua gravidade. Dominam-no e o embrutecem a estupidez da idolatria, o ateísmo, a cupidez do ouro, a desordem das concupiscências da carne, a violência, a ambição, a malícia, a maldade, a falsidade, o egoísmo, etc.
Nada como a Revelação, portanto, nos permite chegar ao conhecimento do homem. Também, nada melhor do que a Revelação para entendermos quanto o homem é incapaz de se conhecer. É a Revelação que o informa sobre a sua origem, lhe explica as condições de deterioração em que se encontra e, quanto a isso, lhe apresenta os meios para dela sair e o caminho para se realizar. O homem, em Deus, tem um Pai que o criou, uma Mãe que o gerou, alguém que o teceu em cada fibra do seu ser (Sl 139,13) e o plasmou com dedos de artista.
A Escritura, após ter apresentado em Gn 1-2 as condições ideais de realização do homem, com Gn 3 logo explica de que maneira ele chegou à condição desastrada, que a sua história registra. Esquecido do seu Deus e dos benefícios dele recebidos, enveredou o caminho dos seus vãos arrazoados. Longe do seu Deus, a quem já não presta o culto dos seus lábios motivado pela contemplação das obras da criação, acaba presa dos vícios que o levam à prática do mal. Dominado pela perversão e tendo-se tornado iníquo, diz Paulo, pratica a injustiça e, até, aplaude os que fazem o mesmo (Rm 1,28-32).
A Escritura revela que, por ser o Deus criador a própria Bondade, ele não abandona o homem ao seu destino de autodestruição. No seu amor, vem em seu socorro. Pedro fala de um Cordeiro imolado que Deus contempla desde antes a criação do mundo (1Pd 1,19-20). É a Descendência da Mulher, da qual fala Gn 3,15, o próprio Cristo, que se apresenta na história do homem “chegada a plenitude dos tempos” (Gl 4,4): o Filho que o Pai “consagrou e enviou ao mundo” (Jo 10,36) para salvar o homem. A regeneração do homem acontece por graça, em virtude de uma clara intervenção divina. A história de Israel mostra como Deus prepara a manifestação do seu poder e da sua glória em Jesus de Nazaré, o filho de Maria, para que fique claro que, se dependesse do homem, nunca seria possível uma redenção. Paulo disto fala claramente na Carta aos Romanos. A prova cabal de tudo isso é a própria rejeição do Cristo do Senhor por parte do povo judaico, quando ele deveria ter sido o primeiro a lhe dar a sua adesão de fé. A Igreja Apostólica, nos seus escritos, não se cansa de repetir esta verdade. Paulo, em Rm 11-13, a explica, exatamente dizendo que a rejeição de Israel é fruto da incapacidade do homem. Deus permite que o povo da revelação, da Glória, da Lei, do culto e dos Patriarcas, ao qual pertence, segundo a carne, o próprio Cristo, renegue Jesus, não obstante o fato de que a ele, por primeiro, fosse dirigida a pregação dos Apóstolos, para que o anúncio da salvação chegue, por meio dele, aos gentios. Dessa forma, fica provado que todos estão sob o jugo do pecado e precisam da graça de Deus (Rm 11,32).
Os fiéis chegam a reconhecer totalmente o dom divino quando tomam conhecimento da realidade divina que se manifestou na história de Israel que, como lembra Dt...., era o único destinatário do verdadeiro Deus do qual recebeu leis sábias e escutou a voz dos seus profetas. É, sobretudo, a Pessoa divina de Jesus que prova como o homem somente conhece o caminho da sua realização quando é a Divindade que, por ele, o conduz. O autor da Carta aos Hebreus é muito claro a esse respeito quando afirma: “Aprouve a Deus esmagar o Filho no sofrimento para que entrasse na Glória e, dessa forma, se tornasse causa de salvação para os seus irmãos” (cf. Hb 2,10).
Na Carta aos Romanos, Paulo afirma veementemente a gratuidade da salvação e da regeneração do homem. Para isso chega até a descrever a situação deprimente em que se encontra o homem, incluído o judeu (Rm 1,18-2,1). Apresenta, então, em seguida, a figura de Abraão, para mostrar qual é a maneira verdadeira de agradar a Deus que, em Jesus Cristo, manifesta toda a sua benevolência (Rm 4). De Rm 5 até Rm 8, apresenta, então, qual deve ser a resposta do homem à iniciativa de Deus. Grandiosa é a ação de Deus que nos justifica. O fiel, contudo, deve corresponder com o testemunho, perseverando nas tribulações até fazer desabrochar, pela constância, a virtude da esperança que, nele, coroe a sua caridade. Para isto, deve encontrar a sua motivação considerando Jesus que, pela sua imolação, em virtude da sua condição divina, mereceu a efusão da graça sobre todos os homens. Com o Batismo, somos sepultados na sua morte para ressurgirmos para uma vida nova. Se o judeu, não obstante a santidade da Lei,
constatou que, por causa dessa mesma Lei, suas culpas somente se multiplicaram, agora, juntamente com o gentios, pode se realegrar porque, pelo Espírito, pode se libertar do “corpo de morte”. O jugo da Lei mosaica multiplicava as culpas. Agora, sob o jugo da lei do Espírito, o homem encontra a liberdade dos filhos de Deus (Rm 8).
Se seguimos passo a passo os ensinamentos de Paulo nas suas cartas, a partir da 1Ts, é possível traçar o código de leis do fiel. Abandonando o culto prestado aos ídolos, ele deve praticar a adoração do verdadeiro Deus, vivendo na esperança de estar definitivamente com o Senhor (conceito relembrado em Cl 1,11-12). Deve alimentar a sua fé pelo Evangelho para se encher da ciência do Cristo crucificado “Poder de Deus e Sabedoria de Deus” (1Cor 1,24). Não entristece o Espírito que leva o homem perfeito à compreensão das profundidades de Deus (2,10). Vive neste mundo sem ser deste mundo (7,31). O elemento propulsor da sua vida é a celebração da Eucaristia, pela qual alimenta-se do Corpo e do Sangue de Cristo (10,16). A vida de caridade é a coisa principal na vida do fiel (13,13). Por isso, todos os outros dons devem ser considerados condições para promovê-la. O termo último da ascética cristã é chegar a estar com Cristo que nos anuncia a nossa condição definitiva com a sua ressurreição dos mortos.
Em 2Cor, em relação à vida do fiel, Paulo ressalta a ação do Espírito com uma colocação singular e preciosa quando em 3,18 afirma que somos santificados pelo “Senhor que é Espírito”. É algo que acaba altamente valorizado quando lemos, na Carta aos Efésios, que Deus, por Cristo fez de dois povos um só povo que é a Igreja que, tendo o Senhor como Pedra angular “se edifica, no Espírito, em templo de Deus” (Ef 2,22).
Em Cl 1,11, a ação do Espírito é descrita como Poder que permite realizar, em tudo, as boas obras às quais os fiéis são chamados. É um conceito que Paulo já expressa, também, em Fl 2,13.
Se tomarmos como lema da vida cristã aquilo que Paulo escreve aos Gálatas: “Já não sou mais eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim. Minha vida na carne eu a vivo na fé do Filho de Deus que me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20), temos toda a motivação para viver o programa ascético de 2Pd 1,3-10, vendo nele o caminho ideal para levar à perfeição a nossa configuração a Cristo Sacerdote, Profeta e Rei, atuada em nós no momento do nosso Batismo pelo sinal indelével com o qual o Espírito nos marcou (Ef 1,13).
Todos estes valores que a Catequese Apostólica nos apresenta são a motivação para vivermos os compromissos morais que a mesma nos lembra, segundo a mensagem que o Senhor nos deixou (1Jo 2,3b), vendo neles não mais uma odiosa imposição, mas uma condição de plena realização. Eles se resumem em dois compromissos: 1º) o da purificação, como quando a Carta aos Colossenses diz: “Se ressuscitastes com Cristo, procurai as coisas do alto.... Vós vos desvestistes do homem velho... e vos revestistes do novo, que se renova” (Cl 3,1.9.10). 2º) o da caridade, como exorta Ef 6,14-17 : “Cingi vossos rins com a justiça, revesti-vos com a couraça da fé, calçai a sandálias do Evangelho de Deus. Abraçai o escudo da verdade contra os dardos inflamados do maligno, colocai o capacete e empunhai a Espada do Espírito que é a Palavra de Deus”.

O homem novo é o homem que Deus é capaz de levar à perfeição. Embora a sua criatura esteja a tal ponto destroçada pelas concupiscências, pela maldade e pela injustiça que chega a se tornar iníqua e perversa, Deus nos mostra que está agindo com sabedoria, quando quer levá-la a termo através do Filho, que esmaga no sofrimento. 
. É a sua atitude misericordiosa que acaba sendo a condição de obter da criação toda a glória devida ao seu Nome, porque, então, é dado ao homem ver claramente a sua condição de impotência diante do Plano de Deus de dignificá-lo e, assim, manifestar toda a sua gratidão pelas maravilhas que Deus nele opera.
O que dificulta, por parte do homem, o reconhecimento do Desígnio de Deus, como é apresentado de forma grandiosa pela Revelação é a forma narcisista com que ele se contempla. Interagindo com a sua história ele se encanta com as manifestações das suas habilidades que as civilizações apresentam. A elegia que nos é apresentada por Ap 18 lamenta a destruição, “numa hora”, dos esplendores da Cidade a Grande. O pensamento filosófico, contudo, nos prova que a admiração que o homem sente por tudo aquilo que realiza, é um equívoco, fruto da sua ingenuidade. O homem constrói a compreensão do mundo através de conceitos que são fruto de uma interação aleatória com o mesmo. Ainda não entende que está longe de dominar as leis do universo, da física, da biologia e de compreender a natureza de sua vida e, sobretudo da vida do Criador.

O homem é aquele que crê que dá passos gigantescos, embora permaneça nele a limitação da compreensão da criação. É pela fé que sabe com precisão qual é a sua origem, quais são as regras que devem reger a sua relação com o Criador, na condição de criatura. Sabe, sobretudo, que Deus o chama à participação da sua vida, numa condição de glória e de eternidade. Da vida de Deus, a princípio, não conhece a natureza. Dela, contudo, compreende a grandiosidade, por tudo o que Deus manifestou pela criação, pela história da redenção, pela pessoa de Jesus de Nazaré e pela história da sua Igreja, na qual temos manifestações sobrenaturais que revelam ser o Deus da fé o mesmo Deus da criação. Não há como contestar os milagres que vão acontecendo ao longo da história da Igreja. Por eles o autor das leis do universo, da física e da biologia revela, em Lourdes e em Guadalupe, ser aquele que as manipula de forma soberana.

4) O Plano de Deus para o homem                                                                     

 Indescritível o grandioso Plano de Deus sobre o homem! No momento em que é chamado à existência não dá para suspeitar qual é o termo último da ação do seu Criador. Somente quando, afinal, lhe é revelada a sua condição gloriosa, aquela de filho de Deus em Jesus Cristo, é-lhe dado compreender a natureza da ação daquele que, por essência, é a Bondade. Uma vez que esta, em Deus, é perfeita, na sua onipotência realiza um gesto de amor impensável, que é o de recuperar a criatura da condição de pecado em que cai, através de uma obra de redenção que tem lugar pela Encarnação.


Esta obra torna-se mais maravilhosa quando consideramos que aquele que é “Verdade e Vida” assume a natureza humana na condição de Filho “que o Pai consagrou e mandou ao mundo”  (Jo 10,36). Este acontecimento nos leva a entender qual é, de fato, o grau de glorificação que Deus reserva ao homem. Estamos aqui diante de um mistério. Uma das três hipóstases da Ssma. Trindade, sendo cada uma delas “Verdade e Vida” e comungando cada uma delas da mesma essência do SER, “entra no mundo para que tenhamos todos a vida, e a tenhamos em abundância” (Gv 10,10), segundo a adoção filial.

Finalmente, pelo caminho da imolação fica patenteado de que forma a criatura chega, de fato, à sua perfeição, porque é por ele que nela se realiza a sua vocação: pelo reconhecimento da sua dependência do Criador e compreendendo que a manifestação última da sua adoração acontece com o sacrifício de sua vida.

Deus, então, para quem nada é impossível, lha doa novamente num corpo ressuscitado.

Este programa é deste modo sintetizado por Paulo: “Eu vos exorto, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, a oferecerdes vossos corpos em sacrifício vivo, santo, agradável a Deus: é este o vosso culto espiritual” (Rm 12,1).

Nesta perspectiva vemos que há um único processo de realização do homem, uma vez que a encarnação do Filho devia necessariamente ocorrer para que o homem alcançasse a condição da filiação divina, devido à condição de fragilidade que conduz o homem ao erro. A redenção redunda, contudo, em manifestação ainda maior da Glória de Deus, em virtude da sua ação misericordiosa e de uma divinização; condição de salvação que vai muito além da simples reconciliação.

Uma vez que o Plano de Deus deve acontecer no tempo, a condição de culpa na qual inexoravelmente acaba se encontrando cada homem, é, na Escritura, catequeticamente, apresentada no contexto da criação, até porque é o momento mais adequado para apresentar a condição ideal em que o homem teria podido permanecer, não fosse a rebeldia para a qual os vãos arrazoados da criatura arrastam todo homem, quando se deixa iludir pelo fascínio que a beleza de cada criatura exerce sobre ele.

A condição do homem descrita nos primeiros dois capítulos do Gênesis é uma idealização apresentada no intuito de definir, por contraste, a condição em que ele se encontra, da qual Deus decidiu resgatá-lo pelos méritos do Cordeiro imolado que ele contempla desde antes da criação do mundo (1Pd 1,19-20). A sua ação misericordiosa, desde sempre, faz parte do seu Desígnio e será por ela que resplandecerá toda a sua Glória. Tudo isso transparece no Evangelho de João, a partir da narrativa das Bodas de Caná, momento em que Jesus realiza o primeiro sinal da sua manifestação: “Este foi o primeiro dos sinais...” (Jo 2,11).
  
A Glória do Pai e do Filho, segundo as próprias palavras de Jesus, se manifesta, em toda a sua plenitude, com a Morte de Cruz: “Agora o Filho do Homem foi glorificado e Deus foi glorificado nele” (Jo 13,31).

O primeiro gesto de Deus para atuar o seu plano, é a escolha de um povo para que se torne, entre todos os povos, o seu arauto. Quando os sábios de Israel refletem sobre esta escolha detectam a forma gradativa e sapiente com que o El de Israel a realizou: “Quando ainda não era um povo, o protegeu com amor maternal, tendo-o encontrado num lugar solitário” (Is 63,9b). No manual catequético, que é a Bíblia, tudo isto é celebrado através da narrativa da conquista da Palestina, a terra prometida.

A ligação estrita entre a Descendência da Mulher, prometida por Deus em vista da salvação universal da humanidade, e o povo escolhido, é apresentada através da descendência genealógica de Abraão, filho de Taré, descendente de Sem, filho de Noé, o último da descendência dos patriarcas, descendentes de Set, que Deus concedeu a Eva em lugar de Abel que Caim matou.

Abraão está ligado à descendência que desde sempre invoca o Nome de Iahweh.
           
O segundo grande gesto é a extensa  atividade pedagógica que Deus leva em frente para preparar a obra da redenção que acontecerá da forma mais inesperada e surpreendente com a Encarnação. A escolha, de fato, apresentada de forma idealizada, se deu através do chamado de um povo idólatra entre povos idólatras, que somente, por graça, chegaria a conhecer o único Deus. Foi preciso que interviessem os profetas para afastar o povo de Israel da idolatria. Tornaram-se necessários os castigos da deportação para que ficasse somente um Resto purificado, um povo bem disposto para servir o seu Deus. Viu-se, contudo, quanto o homem estava inclinado para o mal porque o seu espírito se corrompeu reduzindo a Lei de Deus a preceitos humanos, como chegou a advertir Jesus diante da hipocrisia dos escribas e dos fariseus.

 Em compensação, vemos surgir uma literatura sapiencial que desenvolve profundos conceitos sobre o Deus único de Israel.
            
Com a vinda de Jesus, o Plano de Deus sobre o homem chega ao seu momento final. Pela sua atuação ficarão bem claras, de um lado, as características da fragilidade do homem e da sua inclinação para o mal, enquanto, de outro lado, resplandecerá a Sabedoria e a Glória de Deus que, com Poder, realiza os desígnios da sua Bondade.

O primeiro gesto de Deus é o anúncio à Virgem de que se tornará a mãe do Emanuel (Is 7,14). A ela fala “o Senhor que vem ao seu templo, o Anjo da Aliança” (Ml 3,1) e tudo lhe explica pela intuição sobrenatural que Maria recebe. Extremamente profunda é a reflexão sapiencial da Igreja Apostólica que chega a construir o quadro da Anunciação que temos em Lc 1,26-38. Trata-se de algo que somente podia ser formulado à luz do Mistério plenamente revelado pela ressurreição do Senhor. 

Num segundo momento da ação de Deus que vai realizando o seu plano,  vemos a Luz do Emanuel que vem para visitar o seu povo (Lc 1,78-79).

João Batista declara ser Ele “Aquele que é e que era”, que vem na potência do Espírito. Volta a atuar o Deus da criação pela Palavra que expira da sua boca para levar a termo o seu Desígnio. Pela ação do “Unigênito Deus” (Jo 1,18), a Palavra “que se fez carne”, que se tornou, pela sua imolação, o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (1,29), os homens são reconciliados.

Do seu lado direito, transpassado pela lança, saiu o Espírito que configura  a Cristo Jesus aqueles que dão a sua adesão de fé a Iahweh elevado da terra, o Filho do Homem, para que, como povo de sua conquista, receba a herança dos santos, depois de ter vivido , na perseverança,a purificação dos pecados (Ef 1,13-14).

Em Jesus está contida a Revelação, o Mistério que os profetas pré-evangelizaram e que, depois de atuado por Cristo, os Apóstolos anunciaram, “acompanhando o Espírito com muitos sinais”, tão grande salvação (Hb 2,3-4).

Em Jesus temos o modelo da nossa realização, o Mestre divino que nos fala com toda sabedoria. Portanto, devemos andar pondo em prática os ensinamentos do Modelo. Um peso leve, porque o seu verdadeiro peso está no seu valor, uma vez que nos colocam em condições de nos desvencilharmos das concupiscências do mundo, da sensualidade, da cupidez e das ambições desmedidas, que nos privam da vida de caridade, própria de Deus.

As instituições fundamentais que ele entrega à sua igreja para que dê continuidade à sua obra, delas ele mesmo garantindo a eficácia, são o anúncio da Boa Nova, o batismo e a Eucaristia. Destes três sacramentos deriva a graça do Espírito que se manifesta, também, nos outros sacramentos: o perdão dos pecados, a crisma, a ordem sacerdotal, o matrimônio e a unção dos enfermos.

Com Cristo, o Reino profetizado foi anunciado e instituído. À Igreja foi entregue a tarefa de anunciá-lo e dele oferecer a cada geração toda a sua riqueza.

Os que nela são os primeiros a usufruir das suas riquezas têm que se esmerar na compreensão das suas verdades para anunciá-las com dignidade e ser modelos na vivência daquilo que anunciam. São as condições da eficácia do seu ministério. Se neles não se realiza o Reino, não haverá condição para a Igreja, “sacramento de salvação universal”, da qual eles são membros escolhidos para a função de anunciar e santificar, de ser instrumento de salvação.

Foi aquilo que Jesus lembrou a Pedro quando explicava a função daqueles que são prepostos no governo da casa de Deus.
  
A excelência do anúncio da salvação está no fato que é revelada a natureza da vida em Deus salvador que implica outro admirável mistério que é o da condição divina do homem Cristo Jesus.

Também, é preciso notar que este realiza a profecia na condição de “Filho que o Pai ungiu e enviou” e que diz a Felipe: “Quem vê a mim, vê o Pai. Não crês que estou no Pai e o Pai está em mim?”. “As palavras que vos digo não são minhas, mas do Pai que me enviou” (Jo 14,9-10). À natureza divina e à condição divina de Jesus deve ser agregado o valor redentor do sacrifício da cruz, que traz consigo o Espírito merecido, o Poder criador em Deus que opera na Igreja, santificando os fiéis e que converte pela Palavra anunciada ao mundo.

A revelação plena supera o impasse da morte, uma vez que fica claro qual é o destino último do homem segundo o Plano de Deus. Trata-se de um destino glorioso porque visa à participação da gloriosa em Deus, alcançada pela ressurreição corporal: “Desfeito este corpo mortal, nos é dado nos céus um corpo imperecível” (2Cor 5,1).

Nada mais esclarecedor, quanto à natureza da vida após a morte, do que diz Jesus na sua oração sacerdotal, no fim da última ceia: “Pai, quero que aqueles que me deste estejam comigo para que vejam a minha Glória, a Gloria que determinaste me dar desde antes a criação do mundo” (Jo 17,24).

Desta Glória participa a humanidade de Cristo. Em virtude da sua redenção, nos é dado participar da santificação que ele alcançou para si. A única condição é aquela de viver o dom da fé recebido no momento em que fomos chamados a participar da vida em Deus. De fato não é ela o princípio da nossa justificação? Se não estivermos vivendo a nossa fé, não estará em nós a justificação porque “manifesta-se a justiça de Deus da fé para a fé” (Rm 1,17).
                                                                                                                                    (5) O Jesus da revelação (I)


No contexto da obra da nossa redenção, a primeira figura que se apresenta é aquela da “Descendência da mulher” (Gn 3,15) com uma atribuição que o próprio Deus nela reconhece, qual é aquela de estar em condições de esmagar a cabeça da Serpente. Estamos diante de uma profecia cujo sentido se tornará claro somente depois que ela se tiver realizado em Jesus. Sabemos que ela é fruto de uma reflexão sapiencial que tem a sua inspiração em Is 7,14, texto contido no Livro do Emanuel (Is 6-12). Contudo, enquanto a profecia de Isaias, ao anunciar o sinal que Deus se compromete realizar para que os homens cheguem, afinal, a ter confiança nele, somente descreve a sua característica qual é aquela de ser o Filho da Virgem, de condição divina, porque “chamar-se-á Emanuel”, Gn 3,15, dele apresenta uma específica ação: ele resgatará a estirpe humana do domínio do mal. Neste caso, a figura da Descendência traz consigo um mistério que pode ser formulado com uma pergunta: ‘Como pode um membro da estirpe humana ser o redentor dos seus irmãos se ele, por ser membro da mesma estirpe, a rigor, precisa ser redimido’? O sábio, na verdade, intui que por trás das palavras da profecia de Isaias há um mistério e o faz seu, mais tarde, pela tradução da LXX, que dará ao termo “almah” (= jovem moça para marido) o significado de “virgem”, embora esteja ainda longe de captar a sua significação final.





 Nós que estamos de posse do sentido pleno do termo porque conhecemos que o Emanuel é Jesus, como claramente nos ensina Mt 1,18-23, e que a condição virginal de Maria é o sinal que indica como realmente Jesus é de condição divina, e isto será provado de forma cabal pela sua ressurreição que o constituirá abertamente Senhor com poder, tornado de alma vivente Espírito vivificante, somos, como diz Jesus, “felizes porque nossos olhos veem” (Mt 13,16). Na condição de quem tudo compreende, conseguimos avaliar a riqueza de doutrina que estas primeiras informações, que a Escritura nos fornece acerca da pessoa do Senhor, contêm.
  A figura de Noé, o justo que encontra graça aos olhos de Deus e que se torna o princípio de uma humanidade nova, salvando os membros da sua família da destruição do dilúvio, vem a definir a condição do homem Cristo Jesus que Paulo declarará “único mediador entre Deus e os homens” (1Tm 2,5). Diante do sacrifício que ele lhe oferece, Deus tanto se agrada que, de forma solene, estabelece uma aliança definitiva com a humanidade, reconhecendo no arco-íris o seu sinal (Gn 9,12-16; Ap 4,3).
   Ao longo da história da salvação, se apresenta a figura de Isaac, o filho que assume a condição de vítima do sacrifício, enquanto carrega a lenha do holocausto. Ele é uma figura importante para entender de que forma Jesus agradou a Deus com a sua morte no madeiro: pela obediência “até a morte e morte de cruz” (Fl 2,8), condição que o Filho somente podia atuar enquanto se tornasse um de nós. Dessa forma, Jesus resulta ser o adão que, único, realiza em si as condições que agradam o Criador, condições de glorificação. Ao tomarmos conhecimento da sua condição divina, que a sua ressurreição revela, chegamos à plena compreensão da glorificação, sua e nossa, da qual o Emanuel é capaz.
    Estamos vendo quanto as figuras do AT relacionadas a Jesus Cristo ilustram o mistério da sua pessoa divina. Este deve ter sido o conteúdo da catequese de Jesus ditada aos discípulos de Emaús e que culminou com o “seu coração ardendo”, particularmente no momento em que Jesus celebrou a “fração do Pão”, sentado à mesa com eles, e seus olhos se abriram (Lc 24,13-33).
     É a própria catequese apostólica que nos ensina a descobrir as figuras proféticas contidas na Escritura. Quando acompanhamos Mateus no seu evangelho, vemos que o Emanuel volta a ser lembrado como uma grande luz que brilha para os que jazem na sombra da morte. É aquele que Isaías descreve na condição de quem tem a sua dignidade régia definida pelos títulos de Grande, Conselheiro admirável, Pai eterno, Príncipe da Paz (Is 9,5). É aquele sobre quem repousa o Espírito do Senhor, de sabedoria, entendimento, conselho, fortaleza, ciência, piedade, temor de Deus (Is 11,2). As prerrogativas que a profecia lembra nos ajudam a diversificar os conteúdos dos títulos divino- messiânicos de Jesus, potenciados pela sua condição divina, característica que, certamente, escapava à própria visão profética. Quanto mais somos esclarecidos pelo conteúdo de cada título, enriquecido pela novidade que a Encarnação acarreta, tanto mais tomamos consciência da grandeza da condição divina de Jesus. Aquilo que é atribuído a Jesus vai sempre mais nos tornando conscientes da sua divindade, muitas vezes ofuscada pela sua humanidade por causa do nosso despreparo em saber reconhecer na ‘kenosis’ pela qual a Divindade optou (Fl 2,7), a forma mais conveniente para se revelar.
     O título divino-messiânico que melhor sintetiza as prerrogativas de Jesus e que o próprio Jesus se atribui de forma aberta, é aquele de “Filho do Homem”. Nos sinópticos se apresenta de forma insistente a partir da profissão de fé de Pedro que o declara ser o “Messias, o Filho de Deus”. É bom logo notar que o que Pedro professa nos encaminha para a revelação última que Jesus nos fará da sua condição na Vida trinitária, porque no momento da sua profissão de fé, os termos de “Messias” e “Filho de Deus” são sinônimos. Vemos, de fato, que é em João que Jesus, por sua iniciativa, anuncia a sua condição divina de Filho, à qual nunca poderiam chegar os Apóstolos por virtude própria. Em João, o título de Filho do Homem representa em si, desde o início, as condições divinas do messias, a Glória de Iahweh de Ezequiel. Mais ainda, ele é o tema de toda a catequese do evangelho do Apóstolo.
      O prólogo do evangelho de João, depois de tudo aquilo que nos disseram as figuras citadas do AT, sob a orientação da catequese apostólica, se torna o ponto de partida para uma descrição abrangente de Jesus segundo tudo o que a revelação nos diz. Na vida Trinitária, com o Pai e o Espírito participa da natureza do Verdadeiro, o Deus único existente. A ele é atribuída a obra da criação, enquanto, segundo uma linguagem antropomórfica, como nos ensina o prólogo do evangelho de João, ele é a Palavra que estava com Deus e que era Deus, pela qual tudo foi feito do que existe. Na condição de “Palavra da Vida, Vida, Vida eterna” (1Jo 1,1-2), ao assumir a condição humana, ele se torna a grande Luz que “ilumina todo homem que vem no mundo”, uma condição que é ilustrada por uma metáfora da qual João muito oportunamente se aproveita, que se encontra na narrativa da obra que o Criador realiza no primeiro dia da criação (Gn 1,3-5). Jesus é um filho de homem porque é o Emanuel, o Filho que Deus Pai envia, chegada a plenitude dos tempos, aquele que a ressurreição revelará grande, aquele que “de alma vivente, se tornou Espírito vivificante” (1Cor 15,45), em quem deve ser reconhecido o “Filho do Homem”, aquele que, único, pode subir ao céu, porque, único, desceu do céu, único capaz de nos falar do Pai. Segundo a sua condição divina, quer realizar com a sua Igreja, aquela que ele vai reunir na condição de Bom Pastor que dá a vida pelas suas ovelhas, as núpcias eternas, já profetizadas por Oseias: “Eu te desposarei a mim na fidelidade e conhecerás a Iahweh” (Os 2,22). A narrativa alegórica das Bodas de Caná (Jo 2,1-12) é a sua mais bela apresentação, quando oportunamente associada ao quadro da Morte de Cristo, onde “a mãe de Jesus estava lá” (Jo 19,25), tendo chegado a “hora” da manifestação da Glória. Segundo a sua condição divina, aquele que se apresenta em tudo igual a nós, exceto no pecado, o filho de homem perdoa os pecados (Mc 2,10). De fato, explica Jesus a Nicodemos que ele realiza em si a figura da serpente que Moisés levantou para que todos aqueles que olhassem para ela fossem curados, “porque Deus tanto amou o mundo que enviou o seu Filho para que todos os que cressem nele rivessem a vida eterna” (Jo 3,16).
  A condição de Jesus que se apresenta segundo a figura de Iahweh que volta a desposar a sua amada que de "amada" tinha se tornado a “não mais amada” (Os 2,25); que no Éden mostra toda a sua misericórdia anunciando a “Descendência da Mulher” que esmagará a cabeça da serpente, nos revela quão é importante associar os ensinamentos da catequese apostólica com as figuras que ela vem nos apresentando, tiradas dos livros proféticos, oportunamente analisadas.
   A Carta aos Hebreus, enquanto, na sua abertura nos apresenta Jesus a partir do seu aspecto visível, chamando-o de filho herdeiro, imediatamente associa a esse título divino-messiânico dois títulos divinos: “Resplendor da Glória de Deus, Imagem do seu Ser” (Hb 1,3; Sb 7,26), para nos apresentar Jesus na condição do Filho que, “realizada a purificação dos pecados, sentou-se à direita da Majestade” (ibid.). É aquele que o Apocalipse apresenta recebendo a mesma adoração pela corte celeste, sentado à direita de Deus. Por estas figuras da redenção e da glorificação de Jesus, vemos sintetizada a forma pela qual a Divindade quis se tornar conhecida aos homens. Trata-se de uma forma sapientíssima cuja significação, como já vimos, vai gradativamente sendo composta pelas imagens da linguagem figurativa da Bíblia, nosso manual catequético.
   A familiaridade que chegamos a ter com a Catequese apostólica, apresentada pelos evangelhos e os outros escritos do Novo Testamento, devido às suas inúmeras informações acerca da pessoa de Jesus, acaba nos transmitindo, quase que automaticamente, a percepção da sua condição divina. Por ele somos introduzidos na Vida trinitária da qual, embora continuemos na mais absoluta impossibilidade de definir a natureza, já podemos dizer que, da mesma, chegamos ao conhecimento de uma riqueza incomensurável. Disso tudo, o que mais nos consola é que a Ssma. Trindade quis efundi-la sobre nós pela ação do Espírito Santo.
   Uma ação trinitária, portanto, e esta é a surpreendente conclusão, age em favor de todo e cada homem, sendo-nos dada a condição de potenciá-la na medida em que, na condição de criaturas, correspondemos à ação daquele que quer nos moldar. Infelizmente a sua obra amorosa e sapientíssima, muitas vezes é frustrada pela massa que se rebela e questiona o próprio oleiro (Is 29,16).
    As palavras de Jesus, quando ele fala da sua pessoa, não podem deixar de repercutir fundo na nossa alma, para que o nosso espírito encontre em nós a disposição de nos abrirmos mais à ação da graça. Ele á a Vida-Verdade, portanto uma das hipóstases do “Eu sou”, que se fez carne e colocou a sua tenda entre nós. Ele é aquele que na condição de Filho “que o Pai consagrou e enviou ao mundo”, dele recebeu o poder de ressuscitar, porque diz ele: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10), uma vez que “Eu e o Pai somos um” (v.30). O memorial da sua Morte é a sua “carne dada para a vida do mundo”. Ele é aquele que ressuscitado, no momento da sua ascensão, enquanto, como lembra a Carta aos Hebreus, entra, uma vez por todas, com o seu sangue no templo do Céu, anuncia que “todo poder lhe foi dado, no céu e na terra” (Mt 28,18).

   Jesus é a Sabedoria que foi justificada pelas suas obras (Mt 11,19).  “Mais bela que o sol” (Sb 7,29), “alcança com vigor de um extremo ao outro e governa o universo retamente” (8,1).



 (6) O Jesus da revelação (II)

Cl 1,17 não hesita em atribuir a Jesus uma condição divina: “Ele é antes de tudo e tudo nele subsiste”, condição ilustrada por Jo 1,1-18; 8,58; 10,30; 14,10, textos que estão em paralelo com 1Jo 5,20.
A condição divina é implícita e, ao mesmo tempo, é o fundamento da condição de Jesus todas as vezes em que, no NT, é proclamado Senhor, título que traduz o termo pelo qual os autores do AT falavam de Deus, o El de Israel, enquanto se manifestava: Iahweh. Hb 1,2 explica esta condição de Jesus, o Herdeiro, citando Sb 7,26: Jesus é o Filho, “Resplendor da Glória de Deus, Imagem do seu Ser”. Esta sua condição é abertamente manifestada com a sua ressurreição dos mortos, tornado Senhor da Igreja “com poder, em espírito de santidade” (Rm 1,4). Para chegar a esta condição, o Unigênito Deus conduziu a humanidade assumida pela encarnação à perfeição, pela obediência até a morte e morte de Cruz (Fl 2,8).
A condição divina, que está nele, é por Jesus apresentada com o título de Filho do Homem que, de um lado, dele fala como simples homem, um “filho de homem”, mas que a sua ressurreição, por outro lado, mostra ser a própria Glória da Divindade, aquela que Ezequiel contemplava vindo como um electro no meio do fogo, no núcleo de uma nuvem tempestuosa (Ez 1,4): “como de um filho de homem, fogo dos quadris para baixo e dos quadris para cima, sentado sobre um trono de safira, acima da abóbada celeste” (1,26-28).
Os Apóstolos que estiveram com Jesus, enquanto se realizava a sua missão messiânica, falando com ele, escutando-o, vendo-o agir e até contemplando-o “no alto monte”, segundo esse título dele dão testemunho, porque chegaram a ver na sua morte a realização da obra da nossa redenção pela sua imolação e, na sua ressurreição, o selo da concretização do Plano do Pai. Ensinados pelo próprio Jesus que, ao longo da sua vida messiânica já  justificava a sua morte e ressurreição, nas suas liturgias dominicais  exploraram intensamente a sua doutrina, reconhecendo na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos (Lc 24,44) tudo o que o Espírito pré-evangelizara acerca do “Cristo que devia sofrer para entrar na Glória” (v.26).
A esse respeito, é bom lembrar de que forma surgiu a catequese apostólica que apresenta claras características de unidade temática e doutrinal. Lemos, nos Atos dos Apóstolos, que, desde o início, eram costumeiras as liturgias eucarísticas (cf. At 2,42). Os Apóstolos que permaneceram por muitos anos reunidos em Jerusalém, antes de se espalharem pelo mundo inteiro, tiveram muito tempo para estruturar a sua catequese (6,4).
Nota-se, contudo, que foi Paulo que aprofundou os conceitos, devido à sua preparação como rabino e fariseu. Vemos, também, que o Senhor suscitou na sua Igreja profetas, evangelistas e doutores (Ef 4,11), que sintetizaram nos seus evangelhos a pregação dos Apóstolos e até criaram escritos de grande peso sapiencial, quais os Atos dos Apóstolos, a Carta aos Efésios, a Carta aos Hebreus, o Apocalipse e o Evangelho de São João. As redações dos textos resultam serem elaborações que resumem uma pregação vasta e de grande profundidade doutrinária.
Mateus começa o seu Evangelho apresentando uma genealogia que tinha uma significação peculiar para os cristãos de origem judaica: Israel é o povo escolhido, a partir da vocação de Abraão, ao qual pertence, “segundo a carne, o próprio Cristo” (Rm 9,5). Nela se encontra resumida, através de nomes de uma descendência, a história do povo que conheceu vicissitudes nem sempre honrosas, devido a crimes praticados por seus membros, que Deus, todavia, permitiu que dessem continuidade ao povo ao qual tinha jurado ser fiel, nos seu amor misericordioso. Israel conhece, então, a presença do seu Deus no filho de Maria. Realiza-se a profecia de Gn 3,15, da forma mais surpreendente. É o Espírito que suscita em Maria, antes que coabite com o seu esposo da casa de Davi, o Emanuel. As informações que o evangelista nos repassa são uma evidente síntese de uma apresentação solene da pregação apostólica sobre o Israel de Deus e sobre o Emmanuel de Is 6-12: a Pedra que se desprende, que aniquila os reinos destinados a perecer e que, em seguida, se ergue num alto monte que nada poderá abalar; o menino cujos títulos são: Deus grande, Conselheiro admirável, Pai eterno, Príncipe da paz; o rebento da cepa de Jessé sobre o qual repousa o Espírito com os seus sete dons; o filho que excede em grandeza todo e qualquer descendente da estirpe de Abraão, porque nasce da Virgem.
Os Apóstolos tinham consciência da profundidade da doutrina que ensinavam porque era ditada a partir do testemunho que eles estavam dando de Jesus, que Deus constituiu Senhor. Iluminados pelo Espírito Santo estavam de posse da mais profunda compreensão do valor redentor da sua Paixão e Morte de Cruz. A Ressurreição e a Morte redentora permitiam apresentar todo o sentido profético dos ensinamentos de Jesus, dos seus sinais e das suas instituições, o sentido escatológico da vida da Igreja, o sentido do Reino que ele explicara com as suas parábolas, fundara com a sua Morte e no qual a Igreja, agora, esperava na sua manifestação gloriosa.
A reflexão sapiencial da catequese apostólica, enquanto orientada a ver nas manifestações da vida de Jesus os valores espirituais que acabamos de lembrar, nos é claramente provada pela narrativa midrashica da visita dos magos. Por ela, tenta-se ilustrar, enquanto é considerada manifestação divina na pessoa de Jesus, o filho da Virgem, portanto o Emanuel, a sua condição de Rei universal, a partir da sua origem hebraica: o rei dos judeus que devia nascer em Belém de Éfrata (Mq 5,1). A fuga até o Egito quer comentar a condição de fragilidade em que desponta a realização do Plano de Deus que vai se firmando porque Deus o protege, não obstante a terrível ameaça do mundo. Quando a cidade de Nazaré se torna a cidade onde Jesus estabelece a sua residência, a reflexão sapiencial explora o seu nome porque reconhece em Jesus o germe do Resto que Deus reservou para si, em Israel. Nesse sentido, os quadros midrashicos de Mt 2 podem ser considerados uma valiosa contribuição da reflexão sapiencial, acrescentada à síntese da exposição da pregação apostólica.
O fato de que o evangelho de Mateus foi escrito em hebraico e pregado em aramaico, ao longo da quarta década do primeiro século, nos permite dizer que ele está nos transmitindo os conteúdos da catequese apostólica. De fato, sabemos, pelos Atos dos Apóstolos, que os Apóstolos, não obstante as perseguições dos judeus, permaneceram unidos em Jerusalém. Isto explica a dependência de Marcos, da pregação dos Apóstolos na Igreja jerosolimitana, como, também, a dependência da mesma do trabalho mistagôgico do evangelho de Lucas e do evangelho de João (cf. a relação da narrativa, em João 6, da multiplicação dos pães com aquela de Mt 14,14-33).
A percepção da pregação apostólica, atrás da inteligente síntese das redações dos evangelistas e doutores, nos permite captar de que forma Jesus agiu.  Através de Lc 4 e 24 podemos deduzir que ele se apresentou e foi considerado como um “profeta”. Tudo pode ser sintetizado na exclamação do povo, lembrada pelo evangelho: “Um grande profeta surgiu entre nós e Deus visitou o seu povo” (Lc 7,16). Pela forma segundo a qual os evangelistas nos falam de Jesus, este resulta ser, e, de fato, assim devia ser, aquele descrito pela pregação dos Apóstolos às suas comunidades: um homem de Deus. Temos essa expressão resumida nas palavras de Nicodemos: “Certamente tu vens de Deus, porque ninguém realiza as obras que tu fazes a não ser que venha de Deus” (Jo 3,2).
Jesus resulta ser um judeu esclarecido, quanto à compreensão das Escrituras; uma condição que é amplamente explorada pela pregação apostólica, diante da ressurreição. Os ensinamentos são, então, relembrados, a eles atribuindo uma autoridade divina: “Foi dito aos antigos, mas Eu vos digo...” (Mt 5). Quando Jesus explica a sua condição de Messias, mostra ter pleno conhecimento do Plano de Deus e da maneira correta de ser realizado: “Jesus começou a mostrar aos seus discípulos que era necessário que fosse a Jerusalém e sofresse muito dos anciãos, dos chefes dos sacerdotes e dos escribas, e que fosse morto e ressurgisse ao terceiro dia” (Mt 16,21). Na condição de Pessoa divina, certamente deve ter surpreendido os seus discípulos quando declarava ser o Filho do Homem que único pode subir ao céu porque somente ele desceu do céu; e quando exclamou: “Eu te louvo ó Pai... Ninguém conhece o Pai a não ser o Filho...” (Mt.11,25-27).
Diante das prerrogativas de santidade e sabedoria divina, já não deveria ser tão difícil admitir a possibilidade de ele ter realizado os sinais da sua messianidade. Com Jesus estava acontecendo aquilo que a visita de um rei a uma cidade podia significar. Os benefícios que a divindade trazia superavam, e muito, o que a riqueza de um simples rei da terra podia oferecer, sobretudo porque os seus milagres queriam ser sinais de graças ainda maiores, quais a da libertação do maligno, de curas espirituais, da comunicação da luz da verdade, do alimento para o espírito, da santificação pela remissão dos pecados, do entendimento das Escrituras. É evidente que, para os Apóstolos, aquilo que nós, enfaticamente, chamamos de milagres e consideramos, muitas vezes, o máximo da manifestação do poder divino de Jesus, eram simples sinais, quando citados na sua pregação. Talvez até os narrassem por causa da sua relação com figuras do AT [cf BJ Mt 14,13, nota de rodapé n)]. Para eles era importante ilustrar a realidade que Jesus tinha apresentado através do seu poder divino.
Pedro , ao falar de Jesus, proclama que ele é o Cordeiro imolado que o Pai conheceu desde antes a criação do mundo (1Pd 1,19-20). Trata-se de algo que apresenta, de forma inequívoca, a universalidade da salvação que somente pode ser merecida por um homem de condição divina, porque somente uma Pessoa divina pode merecer em favor de outros seres, tornados seus irmãos segundo a natureza humana, uma condição de vida perdida pela rebeldia ao seu Criador.
No momento do Batismo de Jesus, no Rio Jordão, ouve-se a voz do Pai proclamando: “Eis o meu Filho no qual me comprazo” (Mt 3,17). Trata-se de uma complacência merecida por alguém que vive sempre fazendo a vontade do Pai. É por isto que Jesus chega a dizer: “O Pai me ama porque a sua vontade faço sempre” (Jo 8,29). Hb 10 apresenta Jesus nesta atitude desde o momento em que entra no mundo, citando o Sl 40: “Ofertas e sacrifícios não foram do teu agrado. Eis-me aqui, ó Pai, para fazer a tua vontade”, revelando possuir uma santidade plena que, contudo cresce em grau ao longo do seu processo de glorificação. Quando este chega ao seu termo, produz o Adão verdadeiro, na sua perfeição, princípio de santificação para todos aqueles que se tornam seus irmãos pela sua adesão de fé.

À luz da Revelação Plena, pela qual nos é dado saber que Jesus de Nazaré, o filho do carpinteiro e de Maria, é Pessoa divina, nos é possível falar dele, embora numa linguagem antropomórfica, utilizando aquilo que a narrativa da criação nos diz no início da Bíblia. Nisto, o evangelista João é nosso guia quando, querendo apresentar a Pessoa divina de Jesus no prólogo do seu evangelho diz: “No princípio era a Palavra e a Palavra estava com Deus, e a Palavra era Deus” (Jo 1,1). Encontramos a sua elucidação em 1Jo 1,1-2: “O que era desde o princípio da Palavra da Vida, que é Vida, Vida eterna, nós vo-lo anunciamos”. Jesus, segundo a sua condição divina, é Vida, na qual está o poder de criar, que existe desde sempre. Ao assumir a nossa condição humana pela encarnação, pode ser comparado à Luz, princípio de vida para todo e qualquer ser, segundo a sua condição. Em relação aos homens, nela está o poder de resgatá-los das trevas do pecado, reconciliando-os com Deus, contra quem se rebelaram, tornando-se, dessa forma, merecedores de autodestruição. Pela sua obra redentora e santificadora, Jesus, na condição de Filho Unigênito, glorifica o Pai. Este é o significado dos termos que Hb 1,1 utiliza quando fala de Jesus dizendo ser ele: “Resplendor da Glória de Deus, Imagem do seu Ser”. A glória divina resplandece por aquilo que realiza em favor dos homens, tornados seus irmãos, ao tornar-se fonte de “graça e verdade” pela sua imolação, em virtude de ser “Um com o Pai” (Jo 10,30), porque ele está no Pai e o Pai está nele (Jo 14,10).
O Precursor apresenta Jesus exatamente com os termos de Pedro, acima citados (1Pe 1,19-20): “Eis o Cordeiro que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). Os seus discípulos logo compreendem que encontrarão a sua ilustração na Lei e nos Profetas (1,45). A síntese de toda a verdade está no título divino-messiânico que Jesus atribui a si mesmo: o “Filho do Homem” que os próprios anjos servem (1,51).
Pela condição divina do Filho do Homem, resulta claro que a obra que ele realizará pela sua imolação, certamente alcançará o que Deus profetizou ao amaldiçoar a Serpente, no Éden: “A Descendência da Mulher te esmagará a cabeça” (Gn 3,15). Esta estrita relação da Pessoa divina de Jesus, nos permite entender todo o significado das figuras proféticas que falam do Filho do Homem . A primeira dela é o Adão que o próprio Paulo define como “tipo”. Ela permite entender de que forma Jesus comunica a graça, enquanto suscita para si uma descendência. Noé resulta ser, como explica Cl 1,18 o Primogênito dos mortos. É bom advertir que Cl 1,15 sublinha a condição divina que o permite: o Filho é o “Primogênito de toda a criação”. Ao longo do texto que fala da “origem” de Israel, o povo de escolha para ser, entre todos os povos, aquele que anunciará o Deus Único existente, está a figura de Isaac, o amado que, na obediência, aceita a imolação, que torna possível que a bênção divina se estenda a todos os povos.
A reflexão sapiencial da Igreja Apostólica chega a apontar figuras que ilustram a ação divina de Jesus em realidades que não são necessariamente figuras humanas. Em Ex 12 temos a figura do Cordeiro pascal, que João lembra quando quer ilustrar o sentido da morte de Jesus sobre a Cruz (19,34). Jesus é a nossa Páscoa. Por isso, o memorial da sua “Carne dada para a vida do mundo” (6,51) perpetuará a condição de libertação do povo que ele conquistou. Isto será possível em virtude do caráter pelo qual o Espírito por ele merecido nos marcou. De fato, é pelo Espírito, através do exercício dos seus dons que possibilitará a purificação dos pecados, o caminho ascético que Pedro nos dita em 1Pd 1,3-11, que será possível alcançar o Reino dos Céus. Em Ex 16 temos o maná que o próprio Jesus sinaliza como sua figura, o Verdadeiro que desce do céu e “dá a vida ao mundo” (Jo 6,..). A comunidade cristã compreende de tal forma o ensinamento de Jesus que exclama, dirigindo-se Àquele que já conhece como Cristo, Filho de Deus, de quem espera ter a vida em virtude do seu Nome: “Senhor, dá-nos sempre deste Pão”! Em Ex 40 .. temos a figura da tenda da Presença que João aplicará à Encarnação do Unigênito Deus (Jo 1,14). O seu significado se torna mais claro quando advertimos que a descrição da tenda foi redigida tendo presentes as medidas da Templo de Salomão que tinha sido destruído por Nabucodonosor em 587 a.C. A este lugar, “Casa de Deus e Porta do Céu” refere-se Jesus quando lança o desafio aos anciãos do templo, dizendo: “Destruí este Templo e Eu em três dias o reedificarei” (Jo 3,..). O Filho do Homem, Glória de Iahweh, de fato, se apresentará, ressuscitado, aos Apóstolos, no Cenáculo, como o Novo Templo, com o seu lado direito aberto para fazer jorrar a Água do Espírito, para realizar, em seguida, a sua Ascensão ao Céu no topo do Monte das Oliveiras, o monte que, segundo a profecia de Ezequiel, a Glória de Iahweh escolheu ao abandonar a cidade de Jerusalém (Ez 10).